Considerações sobre um modelo de planejamento urbano

Entendendo que as cidades são organismos vivos, dotados de dinamismo e formados por uma grande complexidade de agentes e fatores que influenciam uns nos outros, é (ou deveria ser) extremamente compreensível que elas passem por um processo natural de mutação. Bem ou mal, feio ou bonito, muito ou pouco são conflitos que estão diretamente associados a este crescimento e que tentam a cada nova teoria, a cada novo plano urbanístico, ser vencidos.

É notório que tal crescimento nasceu de uma cultura de expansão, de ocupação dos espaços, onde novos núcleos urbanizados eram criados a partir das demandas do crescimento urbano. Um conjunto habitacional ali, um equipamento urbano aqui, uma linha de ônibus fazendo a conexão e boom! Mas hoje, o que vemos e, principalmente, a cidade onde vivemos já expandiu. Já ultrapassou limites, já verticalizou, já incorporou cidades vizinhas à sua dinâmica, já tem até nome para isso. As regiões metropolitanas não me deixam mentir. E agora? Para onde vamos? Como vamos? Quem vai nos guiar?

Enquanto minha cabeça fervilhava com toda essa problemática e os incessantes questionamentos sobre isso, fui apresentada, nas instigantes e provocativas aulas de planejamento urbano, a um modelo de planejamento muito coerente com a realidade de nossas cidades atualmente. Trata-se de um modelo de planejar e gerir as áreas de interesse patrimonial que tem em sua essência uma dinâmica integrada, considerando de igual importância os aspectos econômicos, culturais, físicos e ambientais, por exemplo.

Partindo da consciência de que a cidade possui uma estrutura urbana já formada, ruas criadas, usos definidos, uma identidade reconhecida pela população do lugar, por que expandir? Por que não readequar, requalificar, renovar as estruturas urbanas que já existem mantendo viva suas características econômicas, culturais, físicas e ambientais?

Esse princípio de Conservação Integrada (CI) consegue garantir o tão almejado desenvolvimento sustentável, a partir da manutenção física e social de áreas específicas integrando com novos usos (numa dinâmica de: mantém e integra).

Na história, as primeiras aplicações da Conservação Integrada aconteceram na cidade de Bolonha, em meados da década de 70, que tinha como objetivo recuperar áreas residenciais e periféricas de centros históricos ocupados pela população de baixa renda do ponto de vista social, econômico e físico sem afetar os residentes do local, ou seja: sem causar a famigerada gentrificação.

Na década posterior a CI passou a ser aplicada em outras partes das cidades, nos conjuntos habitacionais modernos periféricos da Europa, visando uma conexão dessas áreas com o centro da cidade enfatizando também, a criação de equipamentos de uso coletivo.

Nos anos 90 “sentimos na pele” a aplicabilidade da CI bem perto de nós. Dessa vez, ela se volta para áreas centrais que estão em desuso utilizando uma estratégia de recuperação econômica através dos edifícios tombados para atrair investimentos públicos e privados.

De uma maneira geral, além da já citada preocupação com o desenvolvimento sustentável, vemos muitos pontos positivos nesta abordagem do planejamento urbano e, sem dúvidas, o primeiro deles (quiçá o maior) é a consideração de cada área de forma única respeitando suas especificidades físicas, sociais e econômicas, perdendo a generalidade de antes. E, cá entre nós, é um primeiro passo para que o planejamento seja feito de forma correta.

Depois disso tudo, eu fiquei pensando no quão trabalhoso é abandonar uma cultura que está tão impregnada, como a do “planejamento expansionista” que temos praticado até hoje e adotarmos outros princípios, outra forma de pensar e planejar. Mas, quem disse que seria fácil? Estabelecer um diálogo coerente e harmonioso entre estruturas (não falo só de estruturas físicas) do passado e a mutante dinâmica da cidade é o grande desafio.

Este texto foi escrito depois das já citadas “instigantes e provocativas” aulas de Planejamento Urbano 1 do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco, ministrada pela professora Rosane Piccolo (os slides preparados por ela me ajudaram bastante)


Neste link vocês podem encontrar um texto MUITO bom escrito pelos professores (MDU) Sílvio Zanchetti, Norma Lacerda e Fernando Diniz sobre o planejamento e conservação urbana.

Anúncios

2 Respostas para “Considerações sobre um modelo de planejamento urbano

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s